Cada um contribua segundo propôs no seu coração; não com tristeza, ou por necessidade; porque Deus ama ao que dá com alegria.  – (2 Coríntios 9:7)

Tirando proveito das crises que assustam aqueles que se vêem em condições financeiras menos favoráveis, ou da ganância daqueles que sempre buscam as riquezas no mundo, um grande número de  mercenários surge a cada dia, tirando proveito de tal situação. Eles propõem ao povo uma barganha com Deus baseados num falso “dai e dar-se-vos-á”. Este é o chamado Evangelho da Prosperidade, em que se promete que, se contribuirmos com nossos  bens para a igreja, receberemos de Deus outro tanto. Os gananciosos e materialistas são facilmente levados por tal ensinamento, encarando a contribuição financeira na Obra de Deus como uma loteria em que eles apostam na esperança de ganhar.

Vemos, porém, um problema que talvez seja tão grave quanto este; é justamente o outro lado dessa mesma situação. Muitos crentes estão deixando de lado seu ministério como mordomos de Deus, esquecendo-se de que o que têm não lhes pertence, mas sim ao Senhor. Negam a Ele a renda de sua beneficência para com eles, não Lhe trazendo sua mostra de gratidão por meio das ofertas levantadas ao Senhor.

Na parábola dos talentos (Mateus 25.14-30) encontramos um exemplo claro do quanto podemos ser atingidos por esses medos que o mundo nos impõe de forma que deixemos de usar os dons (dádivas) de Deus para o Seu serviço. Isso reflete a falta de Fé legitima e profunda de uma pessoa em Cristo, como seu Senhor. O problema do servo que enterrou sua moeda foi, como ele diz, o medo:  – “atemorizado, o escondi” (v. 25). Quantos chegarão diante do Senhor dizendo que não produziram nada para Ele com as bênçãos que foram depositadas em suas mãos durante toda a sua vida, alegando medo? – “Tivemos medo de passar fome; tivemos medo que o dinheiro acabasse; tivemos medo de ficar doentes; tivemos medo de perder o emprego no mês seguinte; tivemos medo de não dar para fazer nossos planos; tivemos medo…O medo é o oposto da Fé pois, se confiamos não tememos, mas se por outro lado,  temos medo, é porque não confiamos plenamente. Aquele que verdadeiramente está firmado na Fé do Salvador Jesus não deve viver em temores desta vida –  (2 Timóteo 1:7) -  Porque Deus não nos deu o espírito de temor, mas de fortaleza, e de amor, e de moderação. O crente que tem medo, não contribui na causa porque sempre espera para ver se vai ser possível contribuir, isto é, se vai  “sobrar”.

 

O dízimo

Muitas igrejas pregam o dízimo como uma lei para a igreja de Jesus Cristo. Até mesmo igrejas que não adotavam e mesmo o condenavam essa posição, hoje a praticam.

O dízimo tem sua origem mais remota, na menção feita em Gênesis 14.20 quando conta que Abrão deu ao sacerdote de Deus e rei de Salém, Melquizedeque, o dízimo de tudo. Essa atitude não foi movida por uma lei, mas sim pela voluntariedade de Abrão em agradecer a Deus pela vitoria obtida sobre os reis que haviam capturado seu sobrinho Ló. Mais tarde, Jacó, o neto de Abraão, também fez um voto particular para com Deus, em que se propôs a dar o dízimo de tudo quanto Deus lhe desse caso o abençoasse na terra para onde ia – (Gênesis 28:22) – E esta pedra que tenho posto por coluna será casa de Deus; e de tudo quanto me deres, certamente te darei o dízimo Também aqui vemos um ato totalmente expontâneo de Jacó, em um tempo em que nem ainda existia a igreja. No entanto, de alguma maneira ele cumpriu com seu voto.

Posteriormente, o dízimo foi incorporado pela Lei de Moisés, não mais como um ato voluntário, mas sim como parte da lei, que deveria ser cumprida por todo o povo israelita. Essa lei foi criada por Deus para prover o meio de sustento da tribo de Levi e dos sacerdotes, em especial, os quais ficaram incumbidos de cuidar de todo o serviço religioso da nação e, foi feita dentro de um critério de justiça, onde todos poderiam estar contribuindo de forma eqüitativa  (10% para todos).

É curioso o fato de que, no novo testamento, as únicas referências feitas ao dízimo são com relação ao que havia no antigo testamento e dirigidas aos hebreus e nunca à igreja. Nem Jesus, nem quaisquer dos apóstolos, dirigiu qualquer ordem à igreja quanto ao dever ou obrigatoriedade em dar, ou como costumam dizer alguns, “pagar o dízimo”. A esta altura, muitos avarentos e incrédulos começam a pensar que encontraram apoio nas escrituras para deixar de contribuir; mas ninguém se precipite, pois encontraremos muitos ensinamentos claros quanto à necessidade e principalmente à virtude de o povo de Deus (igreja) contribuir. O que tentamos deixar claro neste capítulo é que o dízimo obrigatório nunca foi estabelecido para a igreja de Jesus Cristo pois, como diz nosso texto base – “Deus ama a quem dá com ALEGRIA”. A contribuição por imposição da igreja, como um tributo, taxa ou imposto, não faz sentido quando se coloca no contexto do período da Graça de Nosso Senhor Jesus Cristo. No entanto, devemos pensar em como é justo o sistema do dízimo e que se Deus o impôs como lei, sabia ser plenamente possível ao seu povo viver com os outros 90% restantes. Não era demasiadamente pesada a lei do dízimo, a ponto de que não a pudessem  cumprir. Muito mais hoje, ao crente, que tem seu coração transformado pelo Amor de Deus e o tem em si mesmo, 10% são, com certeza, um “fardo leve” e não devemos, sob a capa da liberdade que temos, encobrir um espírito mesquinho e avarento.

 

A contribuição neo – testamentaria

A igreja, nos tempos atuais, tem seus compromissos materiais que são inevitáveis. A necessidade da regularização jurídica da entidade, para que ela não ande aparte da lei do país, deve ser encarada como fundamental, devido à ordem de estarmos sujeitos às autoridades governamentais (Romanos 13.1-7). Isto nos leva a adquirir certos compromissos com controles e prestação de declarações contábeis e administrativas (embora tenhamos em nosso país certas vantagens como entidade religiosa, sendo isentos da maioria das taxas e impostos).

A necessidade de se adquirir um templo (casa ou salão) para as reuniões, é também clara e, cremos nós, unânime, já que torna-se difícil manter reuniões apenas na casa de um irmão ou não ter lugar certo e fixo para realizá-las. Isto dificulta até a própria condição de se trazer um visitante para ouvir a palavra de Deus. Também existe a necessidade de aquisição de materiais e bens para a realização das reuniões e evangelização. Imagine como seriam os trabalhos da igreja sem termos um local adequado para nos reunirmos; sem o espaço para a realização do culto e dos estudos, para abrigar os irmãos e principalmente os visitantes, sem púlpito para o pregador, sem bancos para os participantes do culto, sem instrumentos para alegrar nossos cânticos, sem energia elétrica para iluminação e tudo mais, sem água para matarmos a sede em dias de calor e para higiene, sem material para limpeza adequada das instalações, sem material didático para as aulas bíblicas das crianças, sem material como folhetos e convites para descrentes (nós mesmos já pudemos sentir o quanto torna-se mais eficiente o trabalho de convidar pessoas para cultos especiais quando se tem material impresso), etc.. Imaginou? Nenhum de nós sentiria-se satisfeito em realizar os cultos deste modo, a menos que isto se tornasse, por algum motivo, inevitável. Nos primórdios da igreja, não havia estas duas necessidades por ela não existir juridicamente e encontrar-se num estágio em que não era tão necessário um lugar efetivamente público para as reuniões, com todas as exigências que se fazem hoje. No entanto, o bom senso nos mostra claramente que não podemos abdicar destas coisas agora.

A necessidade de ajuda filantrópica naquela época era muito maior do que nos dias de hoje, pois era comum o órfão e a viúva desamparados. Não havia aposentadoria e nem mercado de trabalho para a criança e nem a mulher, principalmente a idosa. Além disto, por causa do evangelho, muitas famílias abandonaram seus órfãos e viúvas, que dependiam economicamente deles, à própria sorte. Com isto, a igreja se via no dever de suprir suas necessidades integralmente. É neste contexto que encontramos a maior parte das ofertas trazidas à igreja nos primeiros tempos -

(atos 2:44) – E todos os que criam estavam juntos, e tinham tudo em comum.

(atos 2:45) – E vendiam suas propriedades e bens, e repartiam com todos, segundo cada um havia de mister.

(atos 4:32) - E era um o coração e a alma da multidão dos que criam, e ninguém dizia que coisa alguma do que possuía era sua própria, mas todas as coisas lhes eram comuns.

(atos 4:34) – Não havia, pois, entre eles necessitado algum; porque todos os que possuíam herdades ou casas, vendendo-as, traziam o preço do que fora vendido, e o depositavam aos pés dos apóstolos.

(atos 4:35) – E repartia-se a cada um, segundo a necessidade que cada um tinha.

A necessidade do sustento do obreiro, talvez seja a questão mais atacada por aqueles que não querem ver o progresso da igreja de Jesus Cristo e a maior preocupação daqueles que, movidos pela avareza e uma ingênua inveja, têm medo ou não querem “dar dinheiro para o pastor”. Para aqueles que têm visto tantos escândalos financeiros no meio chamado evangélico, não seria crime algum, temer tais aventureiros e mercenários que querem somente o proveito próprio. Mas, para um crente que conhece a sua Bíblia, conhece a transparência e imparcialidade com que a sua igreja administra seus bens e, acima de tudo, conhece e respeita o homem ou os homens que estão sendo sustentados ou ajudados pela igreja, tal pensamento é, nada mais que uma desculpa para seu próprio pecado de avareza (que é idolatria – Colossenses 3:5). Satanás não quer que a igreja tenha obreiros com tempo disponível para dedicar-se exclusivamente ao estudo e pregação da Palavra pois sabe que isto contribue para o crescimento e fortalecimento da igreja. Dizemos que o membro da igreja que não enxerga a necessidade do sustento do Pastor ou do Missionário está movido por sentimentos de avareza e ingênua inveja porque estão equivocados quanto ao trabalho destes, considerando que a única coisa que fazem seja “dar uma lidazinha na Bíblia e, na hora do culto subir ao púlpito para pregar” – o resto do tempo ele tem para não fazer nada. Estes irmãos poderiam desfazer tal impressão com facilidade, acompanhando um pastor ou missionário ao menos por uma semana ou exercendo ele suas funções por alguns dias. Não tenho dúvidas de que ele mudaria de opinião…

Nossas igrejas têm uma forma de administração bastante clara, em que, quem cuida do dinheiro das ofertas não é o pastor , mas tesoureiros eleitos pela própria congregação; ou seja, pessoas de sua confiança. Todo membro da igreja tem, também, autoridade para propor a exoneração do pastor, caso perceba que ele está desviando-se na doutrina, exercendo autoridade indevida sobre a igreja ou fazendo mau uso da sua condição de servo da igreja, gastando tempo excessivo em banalidades e deixando de efetuar o seu trabalho.

A Bíblia, não deixa dúvidas quanto à vontade de Deus neste quesito:

E ficai na mesma casa, comendo e bebendo do que eles tiverem, pois DIGNO é o obreiro de seu salário. Não andeis de casa em casa. – (Lucas 10:7)

Os presbíteros que governam bem sejam estimados por dignos de duplicada honra, principalmente os que trabalham na palavra e na doutrina; – (1 Timóteo 5:17)

Porque diz a Escritura: Não ligarás a boca ao boi que debulha. E: DIGNO é o obreiro do seu salário. – (1 Timóteo 5:18)

Pequei, porventura, humilhando-me a mim mesmo, para que vós fôsseis exaltados, porque de graça vos anunciei o evangelho de Deus?

 Outras igrejas despojei eu para vos servir, recebendo delas salário; e quando estava presente convosco, e tinha necessidade, a ninguém fui pesado.

 Porque os irmãos que vieram da Macedônia supriram a minha necessidade; e em tudo me guardei de vos ser pesado, e ainda me guardarei.  ( 2 Coríntios 11:7-9).

Não temos nós direito de comer e beber?

Não temos nós direito de levar conosco uma esposa crente, como também os demais apóstolos, e os irmãos do Senhor, e Cefas?

Ou só eu e Barnabé não temos direito de deixar de trabalhar?

Quem jamais milita à sua própria custa? Quem planta a vinha e não come do seu fruto? Ou quem apascenta o gado e não se alimenta do leite do gado?

Digo eu isto segundo os homens? Ou não diz a lei também o mesmo?

Porque na lei de Moisés está escrito: Não atarás a boca ao boi que trilha o grão. Porventura tem Deus cuidado dos bois?

Ou não o diz certamente por nós? Certamente que por nós está escrito; porque o que lavra deve lavrar com esperança e o que debulha deve debulhar com esperança de ser participante. ( 1 Coríntios 9:4-10)

Desta forma, vemos que é perfeitamente lícito que o obreiro “viva do evangelho”, pois se ele foi chamado por Deus para esta obra, ele é perfeitamente digno de receber o sustento material para si e sua família, em recompensa de ministrar o pão espiritual da Palavra. Liderar uma igreja, não deve ser  visto como uma profissão, como outra qualquer, mas o obreiro que se dedica a esta ocupação, também carece do alimento material. Não pregamos que o Pastor precisa de luxo. Um pastor despojar excessivamente sua igreja com salários vultuosos também é demonstração de “torpe ganância” e avareza. O mais correto é que ele possa ter uma condição de vida na média da congregação. Se o que ele almeja são as riquezas do mundo, seu lugar não é no Ministério da Igreja de Jesus Cristo – aquele mesmo que, sendo o Senhor do Universo, “não tinha onde reclinar sua cabeça”.

Uma vez vistas as necessidades da contribuição na época do Novo Testamento (a era da Igreja), podemos enxergar por detrás de uma oferta entregue na casa do Senhor, muito mais que um “pagamento” ou uma simples “esmola”. O crente, ao trazer com alegria a sua contribuição, seja ela em que percentual for, traz sua demonstração de gratidão a seu Senhor e sua mostra de amor. Amor às almas que serão beneficiadas ouvindo ou lendo a Palavra que aquele dinheiro vai proporcionar  por meio da literatura que será comprada, do obreiro que será enviado a pregar, da casa que o abrigará para ouvir… Amor aos irmãos que poderão ser ajudados material ou espiritualmente…Amor a Deus que estará sendo honrado com o que se fará com aquele dinheiro separado para a Sua Obra…Amor a Cristo e a Sua Igreja, que estará sendo impulsionada em sua missão Santa com aquele valor…

É o que encontramos lá em Jerusalém, quando os discípulos traziam suas ofertas aos pés dos apóstolos

(Atos 2:42) – E perseveravam na doutrina dos apóstolos, e na comunhão, e no partir do pão, e nas orações. (Atos 2:43) - E em toda a alma havia temor, e muitas maravilhas e sinais se faziam pelos apóstolos.

(Atos 2:44) – E todos os que criam estavam juntos, e tinham tudo em comum.

(Atos 2:45) – E vendiam suas propriedades e bens, e repartiam com todos, segundo cada um havia de mister.

(Atos 2:46) - E, perseverando unânimes todos os dias no templo, e partindo o pão em casa, comiam juntos com alegria e singeleza de coração,

Podemos perceber nestas palavras, que a sua alegria não era só em “dar” a oferta, mas sua alegria estava verdadeiramente na causa do Senhor. Tinham alegria em fazer parte daquele povo eleito, de serem irmãos e filhos de Deus, tinham alegria em compartilhar tudo. Quando se tem esta alegria, contribui-se com alegria, canta-se com alegria, prega-se com alegria, ajuda-se com alegria…Alegria esta que, tanto aqueles que possuem bens, como  Barnabé (Atos 4:32-37), quanto as pobres viúvas, como aquela que Jesus viu na casa do tesouro do templo judaico (Lucas 21:1-4) podem ter.

 

 

Estudo preparado e ministrado originalmente em 12/1999 à Igreja Batista Livre de Sud Mennucci-SP

Revisado em janeiro de 2012.

Pr Waldir Ferro

Igreja Batista Betel Independente

Rua das Flautas Transversais, 115 – Sto Amaro – São Paulo-SP


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